quinta-feira, 13 de dezembro de 2007

Entrevista com Leonardo Botto

Leonardo Botto, 29 anos, advogado e mais um apaixonado por cerveja, no entanto que, se tornou um dos cervejeiros caseiros com maior reconhecimento pelo conjunto de suas obras, obteve grandes êxitos nos concursos que participou e sempre está presente nas finais de concuros cervejeiros. Em 2006 foi dele o grande triunfo no concurso da Acerva Carioca, pegou um primeiro lugar na categoria "estilo livre" com a rauchbier Feiticeira, e na categoria "Pale Ale" com a Maligna, além disso faturou o segundo lugar na categoria livre com a oatmeal stout Vidua Nigra e o terceiro lugar na categoria pale ale com a Cheirosa.
Neste ano porém as coisas caminhavam a passos lentos para o Botto, usando um termo futibolístico: raspando na trave. Em Campinas no concurso organizado pelo pessoal da Cerveja Artesanal, ficou em segundo lugar na categoria Pale Ale. E no concurso da Acerva deste ano, ficou em quarto lugar com a Belgian Dark Ale "Dama do Lago", que por ironia veio mudar o cenário e tirar este ano "rubinho" para o caro botto, que só batia na trave, a Dama do Lago foi a grande vencedora do concurso da Eisenbahn em parceria com a Revista Beer, agora a Eisenbahn vai produzir 3 mil litros da cerveja do Botto, que virá até Blumenau para acompanhar a produção com o mestre-cervejeiro Gerhardt Beutling, e de quebra ganha uma assinatura de 1 ano da revista Beer, e além disso leva embora com ele 30 caixas da cerveja Dama do Lago produzida na Eisenbahn, rótulo especial com a assinatura do inventor, o pai da Cerveja, o Botto, o restante das caixas da cerveja, bom... é melhor tirar as crianças da sala....
Para quem não reparou nos rótulos das cervejas do Botto ou no desenho acima, verá que o Monge Cervejeiro é uma caricatura do próprio Botto, obra do cartunista Tibúrcio que desenha para a revista Mad, o desenho do rótulo da Thor que diga-se de passagem é muito legal, também foi desenhado pelo Tibúrcio, além claro da caricatura da Tati, querida esposa do Botto, que aparece no rótulo da Feiticeira, "enfeitiçando" o "monge cervejeiro".
Parabéns ao amigo Botto, pelo excelente trabalho feito para a cultura cervejeira nacional, pelas maravilhosas cervejas produzidas, por mais esta vitória e obrigado a Tati por incentivar o nobre amigo, sucesso, e para os caros leitores do oBIERcevando, abaixo uma grande entrevista com o Botto, degustem-a sem moderação.



oBIERcevando - Os nome "mitológicos" ( Thor, vidua, Dama do lago, etc ) de suas cervejas, como surgem, tem relação com a cerveja?

Leonardo Botto - Sempre busco conciliar o nome com algumas das características da cerveja e com quem quero homenagear. A Thor, por exemplo, é uma cerveja do estilo doppelbock (Bode duplo ou dois bodes), originário da Alemanha. É uma cerveja encorpada, forte, com 9% de álcool. Por sua vez, Thor é personagem da mitologia nórdica germânica, respondendo por filho de Odin, e conhecido por sua força. Foi Thor o responsável por roubar do gigante Hymir um enorme caldeirão, com o qual seria feita grande quantidade de cerveja e hidromel para os deuses. Thor tinha ainda uma carruagem puxada por dois bodes, de nomes Tanngnost e Tanngrisni.
Vidua Nigra significa viúva negra em latim, e usei este nome pra designar uma oatmeal stout, de coloração negra como a aranha. O nome viúva-negra vem do fato de que logo após a relação sexual, a fêmea, necessitando de alimento, mata o macho para se alimentar. Alguns machos levam consigo um pequeno “presente” para a fêmea, geralmente um inseto que é ofertado logo após o relacionamento a fêmea, para que com isso a mesma poupe sua vida. Entre outras causas, o nome veio daí, e podemos encarar a cerveja como o “presentinho” para as mulheres, que normalmente preferem as cervejas escuras, mais adocicadas, ou como a própria viúva negra, que levará os que dela beberem ao êxtase, matando de prazer.





oBIERcevando - sempre gostou de cerveja, ou teve aquela fase que, o que vier eu bebo?

LB - Sempre gostei de cerveja, que é a única bebida alcoólica que bebo.


oBIERcevando - Qual a principal leitura para um Homebrew?

LB - Existem alguns livros legais, alguns até possíveis de serem baixados pela internet, mas na grande maioria livros de consulta. Recomendo a leitura do The Brew Master’s Bible, How to Brew, Designing Great Beers, entre outros. Todos são bem legais, mas o mais importante é a troca de experiências, seja através do Orkut, sites espalhados pela rede, ou com amigos cervejeiros.



oBIERcevando - É difícil fazer cerveja caseira, qual a pior dificuldade?

LB - Não, definitivamente não é difícil. O processo é trabalhoso e acho que este é o maior empecilho. Outras dificuldades são a obtenção de bons insumos, equipamentos, sanitização destes e espaço.


oBIERcevando - E as vantagens de fazer cerveja caseira?

LB - Você fazer sua bebida da forma como quiser, suprindo um pouco o abandono do mercado brasileiro às cervejas de qualidade, dos mais variados estilos. Para muitos é uma loucura se gastar tanto empenho na elaboração de uma cerveja, visto que se pode comprá-las em qualquer esquina e sem trabalho, mas o simples fato de você fazer já é mágico e compensador. A cerveja é uma bebida social, agregadora, desde sempre envolvida em cultos religiosos, comemorações, oferendas a deuses, entre outros predicativos, e, de uma forma ou de outra, destinando ela aos nossos amigos e familiares é como se os cultuássemos. Volta aqui a questão da importância da qualidade, uma vez que a cerveja simboliza nós mesmos, como se fizéssemos parte da bebida, e ninguém gosta de mostrar seus defeitos, certo?


oBIERcevando - Só através de associações está ficando viável comprar matéria prima, ou os principais fornecedores estão começando a enxergar os Homebrews?

LB - Ainda são bem poucos os fornecedores, mas estes começam a dar sinais de preocupação conosco, com nossas necessidades, aumentando a oferta de possibilidades para a prática do nosso querido hobby. Mesmo assim ainda temos que recorrer com certa freqüência a importações de equipamentos e insumos, principalmente da Argentina e Estados Unidos.



oBIERcevando - Como surgiu a ACervA Carioca?

LB - Surgiu de reiterados encontros de cervejeiros caseiros aqui do Rio, onde as cervejas degustadas eram as nossas. Inicialmente objetivava apenas um intercâmbio de experiências e conhecimentos, mas com o fortalecimento das amizades começamos a vislumbrar compras conjuntas de matérias primas e equipamentos, maiores encontros e concursos.
Em janeiro de 2006 éramos apenas sete cervejeiros reunidos, mas a cada novo encontro outros cervejeiros se juntavam a nós, muito devido aos cursos de produção do pessoal da Confraria do Marquês, e nossos objetivos foram crescendo. Em Outubro de 2006 fundamos a ACervA Carioca com 21 associados, já marcando pra meados de dezembro do mesmo ano nosso primeiro concurso, ventilado já há alguns meses atrás.




oBIERcevando - Quais as principais propostas e o futuro da ACerva Carioca?

LB - Nossa próxima meta é montarmos nossa sede, com uma cervejaria escola acoplada. Será uma sede social e instrutiva voltada para cultura da cerveja e da amizade, onde os cervejeiros que não dispuserem das mínimas condições para o fabrico possam solucionar o entrave, produzindo suas cervejas.
Outra coisa muito importante pro cenário brasileiro de cervejas, que merece destaque e que é meio pra um dos nossos objetivos, é a criação de outras associações de cervejeiros caseiros, como a ACervA Mineira e a Paulista, e a recém chegado ao grupo Acerva Gaúcha, além de outras nascituras, como a de Santa Catarina. Independentemente do nome adotado por cada qual delas, sendo os fins os mesmos, unidos fortaleceremos nacionalmente o movimento de resgate da esquecida cultura cervejeira, proporcionando a todos nós cada dia melhores cervejas, com a valorização da qualidade da bebida em detrimento da quantidade.
Sendo assim, numa espécie de “descentralização cervejeira”, a idéia é criarmos a ACervA do Brasil, ou brasileira, que ficaria responsável pela organização do grande, itinerante e anual concurso nacional de cervejas, ficando as ACervAs regionais incumbidas de promover encontros menores, mais voltadas pros seus membros e pro crescimento local da cultura cervejeira.



oBIERcevando - O segundo concurso de cervejas artesanais, organizado pela ACervA Carioca foi um sucesso, ano que vem podemos esperar mais?

LB - Tem tudo pra ser um novo sucesso. O III Concurso Nacional de Cervejas Artesanais deverá ocorrer no final do primeiro semestre em São Paulo, iniciando o rodízio dos Estados. Se mantiver o pique de crescimento, temo pelo futuro da Ambev, hehehehe.


oBIERcevando - Dentre os variados estilos que vocês já produziu, qual deu mais trabalho, e qual você mais gostou?
LB - Sem dúvida alguma foi a Thor que me deu mais trabalho e satisfação. Pela dificuldade em fazê-la, uma lager (doppelbock) que mesmo com seus 9% de álcool é fácil de beber, que equilibra bem a potência do álcool com o dulçor do malte.



oBIERcevando - Temos hoje praticamente 4 escolar cervejeiras, alemã, belga, inglesa, e a recém criada americana, qual você se identifica mais, e por que?

LB - Pela ordem, identifico-me mais com a alemã, depois com a inglesa, belga e americana, embora goste de todas. A razão desta identificação que é difícil dizer, pois até poderia alegar que é herança da minha bisavó materna, de procedência germânica e que fazia cerveja em casa há mais de 40 anos, mas não é tão simples assim, e acho que tudo quanto disser será meio inventado, hehehe. Gosto muito mais de cervejas secas e menos frutadas. Adoro lagers e sou bastante conservador no tocante ao uso de especiarias e alguns adjuntos. Talvez sejam estas as melhores explicações, mas não todas.



oBIERcevando - O que falta no Brasil para termos um cultura cervejeira forte e consistente, na sua opinião?

LB - Maior diversidade de tipos de cervejas nas prateleiras dos mercados; melhores preços (menos impostos, menor margem de lucro); valorização da qualidade da cerveja em detrimento da quantidade; doutrinação dos consumidores, até hoje ainda ignorantes quanto ao que se esperar de uma cerveja, que pensam existir dois tipos: a clara e a escura, ou a leve e a forte.
Recentemente estive participando junto do Edu de um evento gastronômico em Parati, que comentei contigo, e não raro ouvimos de chefs conceituados que cerveja não casa com nenhum prato. Talvez falem isso movido por um preconceito arraigado nas cervejas comerciais mais comuns, que ainda hoje monopolizam as gôndolas dos supermercados. Precisamos expor tais pessoas às cervejas de qualidade, ensinando-os sobre estilos e usos, permitindo captarem o todo oferecido pelas bebidas.


oBIERcevando - Qual era sua expectativa em relação ao concurso da Eisenbahn?

LB - A minha expectativa era de ganhar, mas na hora da escolha, de qual cerveja eu iria inscrever no concurso fiquei em dúvida, perguntei para diversos amigos e conhecidos o que achavam, com certeza na minha opinião iria a Thor, uma doppelbock maravilhosa, minha preferida, mas depois de muito pensar e ouvir dos amigos mandei a Dama do Lago, uma Belgian Dark Ale, e sinceramente era uma das minhas ccervejas que não acreditava no seu potencial neste concurso, ainda mais depois que vi as pesquisas do dataBOB que o título talvez ficasse pelo Sul, estava acreditando apenas que subiria ao podium, talvez com um bronze, fiquei na expectativa, mas foi uma inexplicável surpresa.



oBIERcevando - Mais um campeonato, e agora muda alguma coisa, os objetivos, as cervejas, as propostas?

LB - Não muda muita coisa não, fico extremamente feliz com o reconhecimento, a alegria que foi proporcionada por esta vitória, isso é claro, pois se trata de um concurso nacional, de uma micro, porém uma grande cervejaria, uma referência, e poder fazer algo junto com eles sem dúvida é emocionante.



oBIERcevando - E agora, as pessoas irão cair de cabeça no Lago, ou melhor na Dama do Lago, sua cerveja campeã?

LB - Risos, eu espero que sim, a cerveja é bem equilibrada, saborosa, e junto vem todo um trabalho de pesquisa e procura dos ingredientes certos para deixar ela bem feita, acho que juntando tudo isso ela será bem aceita, e também desde quando pai fala mal do filho, risos.


oBIERcevando - Para encerrar meu caro, a pergunta de praxe, qual cerveja você gostaria de estar tomando agora, sem ser uma Botto Bier?

LB - Essa é fácil, as cervejas caseiras dos amigos.


Mais informações no site: Botto Bier

3 comentários:

Anônimo disse...

Só uma réplica: o resultado foi dentro da margem de erro do DataBob. Vai ver se tem pesquisa com precisão inferior a 1,28 ponto no mercado (rs).

Rodrigo Lemos disse...

Fala meu velho! Agora é oficial! Dia 5 de janeiro tô aí em Blumenau! Vamos marcar de ir na Eisenbahn?
PS: Se vc tiver a manha de um hotel bão e barato, me dá o toque! Abs!!!

Vic disse...

O LB tem uma característica (pelo menos uma) em comum comigo: a cerveja também é a única bebida alcoólica que bebo!